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Abandoned: Encontro

Abandoned
19ºCapítulo



Não sabia bem onde estava.
Devia ser um daqueles sonhos confusos, em que o cenário muda de segundo em segundo, mas eu sabia que nunca tinha estado lá.
Encontrava-me sobre uma rocha irregular e coberta de conchinhas, com algumas poças de água espalhadas ao acaso sobre os buracos da pedra.
Ainda estava zonza e cansada, mas aquilo era tão desconfortável que tive de me levantar para não ficar com as costas em ferida.
Estava completamente confusa. Ainda que fosse um sonho, o que raio é que eu fazia ali? Eu, pelo menos, costumava ter sonhos mais animados…
O rochedo era rodeado pelas águas calmas do mar. Dali não se avistava terra, apenas mais meia dúzia de rochas espalhadas ao acaso.
De repente, a água calma tornou-se apetecível, e decidi mergulhar. Algo me dizia que o fizesse, algo estranho, um instinto que não sabia existir, e não sabia compreender.
Ia tirar o meu casaco, quando me apercebi que não o tinha vestido. Aliás, não tinha nada vestido.
Embora não estivesse lá mais ninguém, desejei ter algo vestido, apenas porque não sabia o que iria encontrar. Nessa mesma altura, uma túnica branca apareceu, do nada, cobrindo-me o corpo.
Mergulhei, ensopando a roupa recém-aparecida, –e juro que não sabia como é que lá tinha ido parar – mas sem que essa se tornasse um fardo, e nadei.
Deixei-me levar na boleia de algumas ondas, depois mergulhei, observando a cor exótica dos peixes e corais que por ali se encontravam, e deliciando-me com a frescura celestial do mar.
Nunca me sentira tão bem, tão viva –e se sentira, fora à muito, antes daquilo tudo ter começado –por isso deixei-me ficar a apreciar aquele silêncio, aquela calma, sentindo uma enorme dor de cabeça desaparecer, uma dor de cabeça que não sabia encontrar-se lá.
E quando me fartei, passado talvez umas horas, ou talvez alguns minutos, nadei até ao rochedo mais próximo e trepei-o.
Sentei-me na parte mais lisa que encontrei e apreciei o calor do sol na minha pele.
Foi quando reparei que estava alguém a observar-me.
Levantei-me, rapidamente, assustada, e aproximei-me.
Quando a vi, um enorme temor assaltou-me.
-Olá Zoey –disse, e as suas palavras traçaram-se no ar, formando suaves nuvens azul claras, que transmitiam calma e felicidade.
-Est…Estou…?
-Não. –riu-se –Não, não estás morta.
Respirei fundo, aliviada.
-Então porque me chamou? –as minhas palavras, por outro lado, estavam de um laranja gema intenso, mostrando a minha inquietação e a curiosidade.
-Chamei-te porque percebi que tínhamos de falar, que tínhamos de esclarecer algumas coisas.
Depois as suas palavras tornaram-se mais escuras, e um pouco menos suaves, mostrando que falava muito seriamente.
-Zoey, coisas estranhas estão a acontecer. Coisas que não estavam planeadas e para as quais o mundo não está preparado. Eu sei disso. Mas também sei que dentro de ti se passam coisas estranhas, coisas para as quais não estás preparada, coisas que seriam fáceis de suportar –ou quase –se não fosses os meus ouvidos e os meus olhos, se não houvesse nada diferente em ti. Quero que fales comigo e que me digas o que sentes, que desabafes comigo, visto que estás impossibilitada de o fazer com os teus amigos. Embora aprecie a tua coragem ao esconder-lhes tudo para os proteger, demonstra que escolhi a pessoa certa.
Hesitei.
-Fala Zoey, pergunta o que quiseres.
-Bem… -comecei, agora as palavras eram roxas, demonstrando que estava desejosa de o fazer, algo como o vermelho, mas também muitíssimo embaraçada, algo mais para o rosa. –Eu… Eu não entendo isto! Esta coisa! A confusão toda com o sangue e as feridas, e a fome e o… desejo. –disse esta ultima palavra num murmúrio, baixando os olhos.
-Zoey –proferiu ela, as palavras eram leves como a brisa, e cuidadosas – não notas-te que há algo em comum entre as duas vezes em que aconteceu?
-Algo em comum?
-Sim, um sentimento, ou uma emoção.
Reflecti.
-Tenho, bem, sinto-me triste… Mas eu sinto-me triste muitas vezes, e isto não acontece!
-Não é a tristeza, é algo superior, muitíssimo superior.
-Há, –pensei –há o sofrimento.
-Exacto. E não é um sofrimento normal, é um sofrimento pleno.
-OK, mas o que é que isso tem haver com a minha… sede.
-Tem tudo a sua base na ciência. O sistema é o seguinte: Sabes o que pode provocar depressões, certo?
-Na maioria das vezes deve-se a descontrolos hormonais, não é?
-Exactamente. Bem os vampyros têm capacidades extraordinárias de controlo de hormonas, dai ser muito improvável colocares um vampyro em depressão.
«No entanto, há apenas um componente necessário para que o organismo do vampyro funcione: o sangue.
«Os vampyros retiram certos constituintes do sangue para se alimentar, e estes mesmos nutrientes, ou componentes, tratam das diversas acções realizadas pelos vampyros.
«Digamos que o sangue é um excelente alimento, porque a quase toda a sua constituição é usada para alimentar o vampyro, fortalece os músculos, os ossos, aumenta a resistência, o equilíbrio… E bastantes mais coisas.
«Embora seja um processo natural, quase que se pode dizer que é magico, devido a bastantes mais ocorrências anormais em todo o processo.
«Acontece que algumas das coisas retiradas ao sangue, ajudam a fortalecer o cérebro, dando mais capacidade de aprendizagem, memorização, entendimento, raciocínio ou mesmo mais civilidade, mas também dá outra coisa: Protecção.
«É uma tarefa praticamente impossível mexer com o cérebro de um vampyro, deforma-lo, e devido à sua enorme beleza e capacidade, não existem razões para terem baixa auto-estima.
«Durante séculos tentaram enlouquecer vampyros, torturando-os, ou exilando-os, no entanto, nada se modificava, com excepção de uma maior sobriedade. Os homens temiam isto. Temiam a existência de algo mais forte, que não só não era fisicamente susceptível, como tinha uma mente extremamente poderosa.
«Isto deve-se, principalmente, ao facto de que um vampyro louco pode ser algo catastrófico, acabar com reinos inteiros, ou mesmo extinguir certas populações. Centenas de pessoas e vampyros desapareceram assim, então, como forma de protecção de si e dos outros, os vampyros desenvolveram a mente para que houvesse menos probabilidades de isto acontecer, embora para isso precisassem de algo que lhes desse alimento e força para essa nova capacidade, e começaram a retirar novos nutrientes do sangue.
«É importante que percebas que os vampyros não fizeram por isso, não decidiram fazê-lo, foi um factor biológico, como a evolução dos homens, para que se pudessem proteger.
«E com isto penso que respondi à tua pergunta, embora que indirectamente.
-Então isso quer dizer que eu preciso de sangue para o meu organismo resistir?
-Mais ou menos. Quer dizer Zoey, que o teu organismo está bastante mais evoluído, mas que mesmo assim só o sangue te pode dar certas capacidades. O que é que se passa mais que me queiras dizer?
-Bem, é só que, eu estou ligeiramente frustrada com tudo isto! Não consigo, de maneira nenhuma, ser uma adolescente normal! Tenho atrás de mim centenas de coisas que não posso ignorar, nunca, embora não tenha solução para elas!
-Também já pensei nisto Zoey, e pensei muito bem, acredita, e decidi que uma noite não faria mal.
-O quê?
-Uma noite de normalidade, sem problemas, poderes, ou quaisquer outros factores anormais, e será a de amanhã, a dos teus anos.
-Obrigada –foi o único que consegui murmurar, comovida.
-Ah, e o meu presente para ti.
-Mas já me deu um presente! –reclamei.
-Não, dei-te uma pausa, que é algo diferente, tu não eras suposto seres assim. Toma.
E entregou-me um frasquinho vermelho.
Não, aquilo não era vermelho, era transparente, o liquido é que era vermelho.
Mas era diferente de tudo o resto que eu já tinha visto, dentro daquele, pequenas nuvens prateadas flutuavam, sem saber se eram gasosas, liquidas ou sólidas.
Era o sangue dela.
-Uma gota pode saciar a tua fome, guarda-o fora do alcance da vista dos curiosos.
-Obrigada –murmurei, novamente.
-De nada, querida. Agora vai, e que as estrelas te acompanhem e te guiem.
Preparei-me para fechar os olhos, mas antes disso ela voltou a falar.
-Ah, Zoey?
-Sim?
-Toma atenção à Aphrodite LaFonte. Porque independentemente do que Neferet –falou desdenhosamente nesta parte –diz, eu não a abandonei. Aphrodite tem muitos segredos e muita coisa dentro de si, e embora nem tudo seja bom, seria inteligente ouvi-la, lembra-te de que por entre gozos e olhares afectados, ela pode esconder avisos e conselhos.
-Vou esforçar-me.
-Eu sei que sim –sorriu.
Depois fechei os olhos.
*****
Acordei de novo na casinha.
Lord estava lá –merda, tinha-me esquecido de perguntar por ele! –e o frasquinho estava nas minhas mãos.
Bebi uma gota, pois ainda tinha “sede” e fiquei maravilhada com o sabor, tão doce e reconfortante.
De imediato, o meu estômago deixou de resmungar, e eu restabeleci-me.
Sai da casinha.
“Ora, não há dúvida de que sou muito normal” pensei “A maioria das pessoas desabafa com Nyx todas as semanas!”

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